Personagens do concreto
Quem a cidade me devolve
Às vezes a cidade me devolve o olhar. Um senhor, de boné, sentado numa cadeira no meio da calçada, abre a boca pro sol como se a rua inteira fosse a sala dele; atrás, uma mulher de vermelho segura o cigarro no alto como quem segura a própria paciência. Um menino sem camisa desce a rua de skate no meio dos carros, o colar comprido balançando, como se o asfalto fosse dele por direito. Um homem de camisa branca senta na mureta com um copo na mão, de perfil pra rua, esperando alguma coisa que ela ainda não trouxe. E na lagoa, um senhor de camisa florida fuma como quem fuma ali desde sempre, o cabelo branco levantado pelo vento, enquanto um menino passa correndo com um picolé, com tudo ainda pela frente e sem a menor ideia disso.
O sol bate no rosto deles sem pedir, e eles deixam. Eu não sei o que me puxa nessas horas. Só sei que paro. E que a tarde, depois, fica com a cara deles.